Em certas ocasiões, após a instalação como gem, o Rails não é acionado pelo simples comando “rails” num terminal. Caso seja necessário, um symlink pode ser adicionado. Para tanto, é suficiente entrar com a seguinte linha de comando:

gedit ~/.bashrc

Esse comando abre um dos arquivos que fazem gerenciamento das variáveis de ambiente. Sem entrar em detalhes, é só adicionar, de preferência no final do arquivo, a seguinte linha:

export PATH=$PATH:/var/lib/gems/1.8/bin/

E pronto! Tão gostosa quando lamber cangote de namorada ;)

Perde-se as contas de quantas histórias se iniciaram. Pouco sabe-se sobre as vidas que surgiram no estalar de idéias decorrentes de um devaneio alcóolico qualquer. A loucura e o medo andam de mãos dadas com a criatividade e o prazer, tão ironicamente quanto possa parecer.

Também já fui assim. O entornar de um copo e o simples vislumbre de um rosto me eram mais que suficientes para tecer um extenso véu de luxúria e mistério, romance e desejo. Com o passar do tempo, mesmo o licor era dispensável, e capítulos de uma história estapafúrdia eram escritos a cada passo dado num salão.

Lembro-me de como era curioso perceber a fantasia somente depois de muito transcorrida, forçando cada neurônio a se recordar de como tudo aquilo iniciara. Teria eu a abordado? Teria ela se lançado ao acaso? Um encontro hollywoodiano após um esbarro e uma taça de vinho derramada? Pouco importa. A fantasia atingia agora seu clímax, entre toques e beijos, abraços e afagos, sorrisos e flertes dos mais fogosos possíveis.

E tão breve quanto se iniciara, tão logo a chama inflamara, dissipara. Percebia-se o quanto a conhecia, o quanto de sua vida lhe era familiar, e o quão relevante ela lhe transparecia aos olhos. Abrir mão da mocidade, crescer, se assentar? Tolice! Pra que raios lhe foi dado a vida, senão para vivê-la ao máximo, aproveitar cada precioso segundo, tão precioso que jamais lhe seria retornado?

E uma vez mais, partia. Da terra da fantasia. Acordava. Despertava para a realidade tão frívola e insípida. A mesma que tanto temia e repudiava. Era mortal. Simples. Frágil. Tolo. Mesmo que à revés. Independente do quanto gritasse ou lutasse, assim o seria.

Ao contrário, porém, do que muitos pensavam, não era triste. Aceitava e louvava sua condição. Pois mesmo Deuses os invejam. Mortais, digo. As únicas criaturas no Universo que compreendem o valor do tempo. A riqueza de uma oportunidade. A estima de um momento.

Como viver assim, em meio a tal paradoxo? Amar e odiar um estilo de vida. É possível? É suportável? É humano?

Deixo essa interrogação à quem a anseia. Não é, e nunca foi meu propósito aqui buscar respostas, mas sim buscar uma vida, tão eterna e memorável quanto possível.

Unaware

Publicado: abril 30, 2011 em Contos Incontáveis, Insomnia
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Em certos momentos da vida, é difícil. Viver, digo. Sempre tentando viver, e compreender. O que, exatamente? Não se sabe.

Talvez as incertezas do futuro, como “que carreira é melhor?”, ou quem sabe “ela gosta mesmo de mim?”, ou mesmo “será que sobrou frango do almoço?”. Tudo isso parece tão efêmero quanto longínquo. Existe a remota possibilidade do frango não se incluir nessa idéia, mas quem nunca sentiu a mais sutil hesitação ao tomar uma daquelas 3 ou 4 decisões que definem toda uma vida?

Conheço pessoas que discordam dessa linha de raciocínio. São aquelas que dizem aproveitar o máximo da vida, sem se preocupar com o dia de amanhã. Viver um dia de cada vez. Particularmente, acredito que essas pessoas são as mais perdidas de todas. Escolhem dizer em voz alta que o amanhã não veio, então não há razão para preocupação. Quando na verdade, tais palavras servem única e exclusivamente para ocultar um desespero enlouquecedor perante o desconhecido. Levam ao pé da letra a máxima que diz que “a ignorância é uma benção”.

E é realmente. Desde que não por escolha. Não dá pra ensinar o subconsciente a só cuidar, pensar e lembrar do que é bom, feliz e confortante. Talvez dê quando uma equipe de ladrões de idéias executar uma inserção na sua cabeça, mas ainda me parece algo hollywoodiano demais…

Não pense no destino como algo que já está escrito, mas sim que está sendo escrito a cada dia. Sua história, sua experiência. E essa história será escrita do jeito que você quiser, esteja você consciente disso ou não. Até escolher não se preocupar com o futuro é uma escolha.

Have You Ever Seen The Rain?

by Creedence Clearwater Revival

Someone told me long ago

There’s a calm before the storm

I know! It’s been coming for some time…

When it’s over, so they say,

it’ll rain a sunny day,

I know! shinin’ down like water…

I wanna know… have you ever seen the rain?

I wanna know… have you ever seen the rain?

Comin’ down on a sunny day…

Yesterday and days before,

Sun is cold and rain is hard,

I know! Been that way for all my time…

And forever, on it goes,

Through the circle, fast and slow,

I know! It can’t stop, I wonder…

I wanna know… have you ever seen the rain?

I wanna know… have you ever seen the rain?

Comin’ down on a glorious day…

Rails – Iniciando

Publicado: abril 19, 2011 em rails
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Falei que ia voltar, e com as parciais do meu projeto de estágio. Como disse no post anterior, à medida que for escrevendo código e modelando a bagaça, vou atualizando as paradas por aqui. Só que eu sou tão esperto, que já tava pra colocar o código nu e cru, sem lembrar que não mostrei como preparar o ambiente de desenvolvimento.

Pois que assim seja, então vamos começar:

Antes de mais nada, é preciso saber que Ruby é uma linguagem de programação interpretada, o que não requer compilações e blá-blá-blá. Para tanto, basta instalar o Ruby Interpreter. Por questões de conveniência, todas as instruções serão passadas para ambiente Linux. Mãos à obra:

O interpretador Ruby pode ser encontrado aqui, ou ao abrir o terminal e digitar (ambientes baseados em Debian):

sudo apt-get install ruby

Se o teu sistema não é Linux-based, o link anterior possui informações sobre instalação nesses ambientes.

Depois de instalado, pronto! Você já possui ambiente operacional para rodar qualquer script em Ruby. Mas nossa ferramenta é Rails, então esse só foi metade do trabalho.

Juntamente com o Ruby Interpreter, o comando anterior instalou o gerenciador de pacotes, devices e bibliotecas do Ruby, o RubyGems. O funcionamento dele é semelhante ao do apt-get do Linux, e para instalar o Rails, basta digitar:

sudo gem install rails

E foi-se.  Poderia ter sido utilizado ainda o argumento –include-dependencies, mas para o que vai ser feito, não nos serve muito. Feito isso, basta instalar o NetBeans (Ruby Version) – porque afinal de contas, o propósito é facilitar o trabalho.

Com o NetBeans instalado, abra o menu Tools > Ruby Platforms. Na janela que segue, mude a plataforma Ruby padrão de JRuby (Ruby for JAVA) para Ruby 1.8.x (ou qualquer outra versão que tenha vindo. A versão 1.8 é a mais estável no mercado até a data de publicação deste post). Caso não apareça, aperta o “Autodetect Platforms” e tá tudo tranks.

Isso feito, você já pode iniciar um projeto em NetBeans utilizando Rails.

Próximo post: Iniciando um projeto e instalando os principais “gems” pra começar a festa

Rails

Publicado: abril 16, 2011 em Uncategorized
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Finalmente, depois de tantos anos, dores de cabeça e ameaças de tortura e morte, meu curso de Sistemas de Informação tá terminando. Claro que, antes que isso ocorra, ainda há uma série de desafios a serem superados, tais como Estágio Supervisionado e TCC.

Bom, como a prioridade (por questão de disponibilidade de tempo) é o Estágio – que envolve nada mais que o desenvolvimento de um sistema do ZERO, resolvi reativar o blog com o único intuito de, sempre que possível, postar aqui sobre o progresso do projeto, as dificuldades que vou encontrando (e possíveis soluções, claro), e qualquer outra bobagem que surgir no caminho.

Pra efeito de segurança e razões óbvias, não vou dizer do que o estágio se trata, mas é suficiente informar que está sendo desenvolvido em plataforma Rails, ambiente Linux. Aos pouquinhos, eu vou colocando detalhes aqui, só de boa [:P]

No mais, por enquanto é só, quando apertar a cinta, eu corro pra cá [;)]

Histórias

Publicado: dezembro 5, 2010 em Insomnia

Certas histórias não foram feitas pra ficarem guardadas num caderninho escondido no fundo de um baú (ou de uma mochila :P ).

Certas histórias foram feitas para serem lidas tão logo fossem terminadas.

Esse é o conto de um jovem, nem tão rico, nem tão pobre. Nem tão belo, nem tão feio, que só queria uma coisa: entender a razão de viver. Desde cedo ele vivia tresloucado por não encontrar um motivo pelo qual seu coração batia e seus pulmões inflavam. Parecia algo tão sem propósito e rumo, que lhe era visto como uma total perda de tempo.

Muitas pessoas, ao se defrontarem com este questionamento, se vêem compelidas a resolver tal contenda com soluções práticas e definitivas, como arsênico e lâminas na artéria correta, ou até mesmo indolores, como o cano de um revólver bem posicionado entre os olhos.

Mas o jovem, que nem rico ou pobre era, que nem bonito e feio lhe parecia, não pensava assim. Se havia uma dúvida, uma pergunta, era mais do que sua obrigação encontrar uma resposta. Qualquer uma.

Sua primeira impressão foi que ele estava incompleto. Lhe faltava algo. Depois de muito (ou nem tanto) pensar, concluiu que precisava de outro alguém. Uma outra alma para partilhar suas dúvidas e buscar respostas ao seu lado. Parecia uma boa idéia, e a coisa certa a se fazer.

E encontrou.

Foi tudo muito bom, muito bacana a priori, mas depois de um tempo, passou. Ela não queria respostas. Não queria compreender absolutamente nada. Estava suficientemente confortável em ter alguém que lhe disesse as respostas, mesmo sem entender a maioria das perguntas.

E sendo assim, ele se foi. Não era o que buscava. Não era o que queria. Nada daquilo.

E por certo tempo, vagou. Conheceu pessoas. Envolveu-se com elas. E percebeu que talvez não precisasse de uma só para alcançar seu objetivo, mas várias. E assim o fez.

Ledo engano.

Conseguiu satisfação momentânea. Alívio das dores. E nada mais. Não estava encontrando absolutamente nada, sua paz naquele momento devia-se nada mais ao fato de simplesmente não estar mais se importando com as perguntas. Logo, sua cabeça não mais martelava por respostas.

Mas isso passou. Como tudo antes.

O desejo. A paz. Os sorrisos. Os amores. Tudo isso perde cor e sabor com o tempo.

E com isso, volta o desespero da ignorância, a ansiedade lascinante da dúvida, a dor do vazio. Todas aquelas dúvidas de outrora retornam, aliadas à novas contestações, mais ríspidas, cruéis e torturantes.

E mesmo assim, nada é suficiente para fazer aquele jovem medíocre desistir. Nada disso o impele o suficiente ao fracasso. Pelo contrário, cada novo obstáculo é encarado como um desafio de maior grau, o que lhe é visto como progresso. “Se está piorando, talvez seja por eu estar chegando próximo daquele algo que procuro.”, ele pensava.

Ou pelo menos, era nisso que ele se forçava a acreditar.

Houve então um tempo em que ele acreditou tão fácil e inocentemente que havia encontrado sua resposta, que tudo que fez foi esticar as pernas no sofá, relaxar a cabeça tão cansada, e aproveitar o momento.

Burrice.

A jornada não acaba. Nunca. Antes, era a busca, agora era a manutenção. Estar bem. E permanecer assim.

Nem é necessário dizer que tudo o que o jovem finalmente conquistara havia lhe escapado por entre os dedos. Uma vez mais, e nem por isso a última.

Ser feliz é privilégio de poucos. Ser capaz de lutar por isso é possível pra menos ainda.

P.S.: Essa não é minha história. Quisera eu ter tido tanta sorte assim.

Survival

Publicado: junho 23, 2010 em Insomnia
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a cada dia que passa, fica mais fácil abrir um sorriso, fazer brincadeira, socializar.

Não que eu queira. Não que eu precise. É natural.

A necessidade que parte de mim possui, é a de se misturar, co-existir, participar. Compartilhar.

E a cada dia que passa, eu acredito que essa é a parte mais burra de mim.

Por que não importa se eu to bem ou não, mas sim o quão bem me permito fazer os outros bem. Essa necessidade é facilmente saciável.

As pessoas não se importam mais se o seu sorriso para com ela é sincero ou não. Pro bom enganador, pro bom ator, todo sorriso é honesto.

Algumas pessoas, ao lerem isso, terão o pensamento: “ah, mas eu sei quando ele tá bem ou não… ele não pode fingir pra mim…”

Pense de novo. Os olhos das pessoas só vêem aquilo que querem… ou na mais realista das hipóteses, o que lhe mostram. A princípio, poderão duvidar, mas pouco a pouco, a mente dos comuns, embebida pelo desejo de “ser feliz”, ou de “estar em paz” enebria todo julgamento. Um suspiro de alívio, e tudo estará bem.

Sim, é isso que quero que ache. É aí que quero que deposite suas fichas. Lágrima nem esforço nenhum é capaz de me fazer menos “assim”.

Creia que sorrio. Creia que vivo. Creia que cresço. Creia que alegro e me deixo alegrar.

Ao que pode, ao que tem o poder, sorrir é a coisa mais fácil do mundo.

Fingir um arreganhado de dentes à mostra não me fará mais feliz. Me fará dormir menos pior, pois saberei que ninguém mais se incomodará comigo estar bem ou não.

Fecharei os olhos agora, feche os seus também. Ao raiar do sol, felicidade transbordará de todos os poros do meu rosto alegre, esplêndido…

P.S.: Últimas palavras de um senhor que, por mais duro seu coração fosse, sempre surpreendia seus olhos com sorrisos dos seus ao redor. O melhor presente que lhe deram foi a oportunidade de ver felicidade por rostos alheios.

Dia.

Ou pelo menos, era o que parecia.

A sequidão na garganta o fez acordar com muita tosse e falta de ar. Lufadas de areia subiam a cada arfada pesada e tossida. Até respirar parecia um trabalho árduo naquelas circunstâncias. Tentou erguer-se pouco a pouco, no que filetes de areia escorriam-lhe pelo pescoço e costas.

De pé, todo sujo, as roupas gastas como se tivessem sido usadas por meses a fio, ele se pôs.

O ambiente ao seu redor era muito parecido com o beco no qual ele fizera um mergulho desagradável, acidental e indesejado num monte de lixo até pouco tempo, não fosse o solo árido e os prédios ao lado do que agora não eram mais que montes de entulho castigado pelo vento e pelo tempo.

O vento, aliás, era forte. O suficiente pra fazer os grãos de areia parecerem agulhas ao se chocarem com a pele humana. Peles como à pertencente ao humano que agora vagava lenta e vascilantemente pelo que pareciam ser as ruínas da cidade que lhe viu correr pela própria vida, ao que parecia ter sido poucos minutos atrás.

Seu nome era Benjamin, e ele pouco lembrava do que lhe acontecera, e menos ainda como havia parado ali, ou como a cidade teria se tornado fantasma assim, tão de repente.

Só lembrava dos olhos dourados da figura de terno, que lhe falara de sua passagem certa e inescapável ao inferno.

Então era isso? “Estou no inferno? Morri??”, ele pensou.

Mas não teve tempo de dar continuidade a esse pensamento. Sua dúvida foi interrompida por barulho. Os entulhos pareciam se mover. Rapidamente voltou sua atenção ao prédio de apartamentos que agora não passava de um monte disforme de tijolos e areia.

Olhou. Esperou. Por um tempo indeterminado, e desconfortavelmente prolongado. A expectativa aumentando a cada segundo, sem fazer idéia do que estava acontecendo, em nenhuma das circunstâncias.

De repente, três figuras surgiram detrás do monte de entulho. Pareciam macacos. Tinham corpos humanóides, mas andavam de quatro, com as mãos em apoio ao chão. Eram muito magros, quase esqueléticos, usavam trapos como roupas, amarrados de qualquer jeito, e tinham cabelo muitíssimo ralo, além da pele enegrecida pela sujeira.

Porém, o que mais espantou Benjamin… foram os rostos. Desfigurados. Animalescos. Um tanto… ferais. Eram desprovidos de olhos, substituídos por pele onde estariam as cavidades oculares, e ao que pareciam, se orientavam puramente pelo cheiro, suas narinas não paravam de farejar um minuto que fosse.

Quando perceberam ter encontrado o que procuravam [aparentemente, Benjamin], formaram pouco a pouco, passo a passo, um semi-círculo ao redor dele, forçando-o a se afastar, buscando proteção, distanciando-se deles. Estavam encurralando-o contra os escombros de uma parede, arfando e grasnando alto, tinidos de ensurdecer os ouvidos.

Quando parecia não haver escapatória, eles pararam. Não recuaram, mas não avançaram também. Benjamin, na confusão, tentando pensar em algo que pudesse fazer, uma saída, qualquer coisa. Novamente, seus pensamentos foram interrompidos.

Um quarta figura apareceu em meio à constante tempestade de areia. Era um homem. Não como as criaturas que cercavam Benjamin, mas um homem. Normal. Com toda a simplicidade que a descrição pode ter.

Os cabelos e a pele muito mais ressecados e envelhecidos que os de Benjamin, as roupas porém, mais conservadas, talvez pelo material mais resistente do qual aparentemente elas eram feitas. Andava descalço pelas ruas destruídas, e de longe, vinha murmurando alguma coisa.

Ao chegar mais próximo, Benjamin percebeu que não era uma língua que ele entendia. Era formada por silvos e grunhidos. Não entendia o que eram, mas percebeu o que queriam dizer: não toquem nele ainda.

Benjamin pensou “ainda”, já que as criaturas não recuaram, nem se deram ao trabalho de calar os grunhidos que mais pareciam com brados de “queremos sua carne”.

Com a voz fria e seca, o homem falou:

- Faz tempo que ninguém chega vivo aqui. Por isso meus cães estranharam teu cheiro. Carne fresca demais… – e um sorriso de desdém cortou-lhe a face ressecada.

- De qualquer forma, não posso lhe fazer nada até você falar com o barqueiro. Você tem duas escolhas: vir comigo.

Benjamin engoliria em seco se sua boca não fosse mais que um compartimento árido para guardar seus dentes. A língua quase grudada de vez na gengiva.

Fez uma menção a pular num espaço maior entre uma das criaturas e a parede ao seu lado, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, o homem apareceu como mágica, a menos de um palmo, em sua frente.

- Precisa ser mais rápido que isso. – e ergueu a mão direita, dedos esticados em sua direção, exceto o polegar que travava o médio, numa óbvia demonstração de que o homem estava prestes a dar um peteleco em Benjamin.

E foi o que fez.

O resultado porém, foi inesperado. Benjamin foi arremessado e afundou facilmente no monte de entulho que estava atrás dele.

Atordoado do impacto, Benjamin ainda pôde ver e ouvir, mesmo que vagamente, o homem sibilar ordens aos seus cães naquela língua que ele não compreendia. As criaturas então avançaram por sobre seu corpo caído, catando-lhe por mãos e pés, sem muito cuidado.

Foi levado aos pés do homem, que tocou-lhe a testa com o indicador. Benjamin sentiu como se todo o seu crânio pegasse fogo. Seus olhos pareciam pular das órbitas. Um grito ensurdecedor ecoou pelas ruínas da cidade abandonada.

E Benjamin, enfim, apagou.

Noite.

Uma figura corre desembalada pelos becos frios e úmidos. Pouco importa-se com o que quer que esteja em seu caminho. Precisa correr. Precisa fugir. Precisa viver.

O moreno alto de olhos escuros desespera-se. A visão de agora a pouco tomara-lhe todo o sopro de sanidade que lhe sobrara. Nada na vida lhe apavorara mais que aquilo.

Ele continuava a correr, sem nunca olhar pra trás. Sua vida e bem estar dependia diretamente disso.

Tropeço.

Caiu como uma bola quando atinge pinos numa pista de boliche. Latas de lixo e ratos [vivos e mortos] sacolejavam por sobre sua carcaça largada ao relento. Seus olhos aterrorizados ergueram-se ao luar, mas encontraram outra figura.

Alto, trajado em terno fino e cabelo desgrenhado. Mãos nos bolsos, e um cigarro na boca. Rosto invisível pela sombra da noite que o encobria. Estendeu-lhe uma das mãos como se fosse ajudá-lo a se levantar, e disse:

- Meu caro, preciso que venha comigo.

A voz, esganiçada e nervosa, respondeu, aos gritos:

-POR QUE? O QUE QUER?!?!?! O QUE EU FIZ? PRA ONDE???

A figura alta respirou. Um nuvem espessa de fumaça foi tragada pro alto, enquanto o cigarro era arremessado para um monte de entulho ao lado. Alguns passos, e se abaixou ao lado do rapaz largado no monte de lixo.

O rapaz, tremendo, não se sabe se era de frio ou de medo, pode então ver melhor a face de seu perseguidor. Era um jovem, pouco além de seus 20 anos, pele morena, cabelos negros, rosto quase infantil, mas o que mais chamava atenção eram, sem sombra de dúvidas, seus olhos. Até então, achava-se impossível para as íris de uma criatura, fosse ela qual fosse, assumir uma coloração daquelas. Mas eis que se prostrava perante o rapaz mendigado, o par de olhos mais belos que um ser vivo já teve o esplendor de contemplar.

Não era mel. Não era bronze. Era o dourado mais claro e límpido que já houvera. Parecia cintilar, quando visto de perto.

Sua voz, sussurante, dizia pausada e gentilmente, enquanto estendia novamente sua mão:

- Para onde mais? Para o inferno, obviamente.