Pôr-Do-Sol

É por um corredor mal iluminado que ando agora. Pequenos archotes, com tocos de vela mirrados é que me trazem a mínima sensação de orientação. Meu corpo coberto apenas por um sobretudo preto, como se tivesse vestido com o próprio manto da noite. Ao olhar pra cima, me deparo com o céu… o mais estrelado e perfeito que já vi na vida. Um céu como aquele só me recordo de ter visto uma única vez, e por uma única razão.

Ao voltar minha atenção ao corredor, percebo que sob meus pés… não há nada. Nada além de escuridão. Um enorme manto negro a se abrir infinitamente. Não que o piso fosse invisível, mas como se eu pairasse sobre uma superfície imperceptível ao olho humano, e além dela, só existisse o mais puro e simples vazio. Gigantesco. E assombroso…

Esse ambiente anormal causa uma série de sensações estranhas e confusas. O temor a cada passo, sem saber se haverá algo a me sustentar, e a incrível sensação de o corredor se mover, enquanto me mantenho no mesmo lugar, ensaiando passos na lua.

Como se a estranheza do lugar já não me fosse o suficiente, algo novo me surpreende: as paredes, que até então apenas sustentavam os archotes e contribuiam para minha ilusão de ótica particular, agora eram decoradas por portas. Inúmeras portas. De todos os tipos, tamanhos, cores e modelos. E pelo que vi, nenhuma delas era igual à outra. Cada uma delas era única. Singular.

E todas elas, trancadas.

Mal sei quantas horas haviam se passado, mas nesse incontado espaço de tempo, nenhuma das curiosas portas se encontrara aberta para mim… Algumas delas tinham placas de identificação, porém numa língua ininteligível, uma simbologia jamais vista…

Enquanto andava, ouvi um barulho à minha direita. Vinha de uma porta vermelha, pouco maior que eu próprio, detalhes de moldura simples, como retângulos, espalhavam-se por sua superfície, um trinco antiquado, preso apenas por um cadeado comum, uma tintura dourada, porém gasta pelo uso. O som que ouvi vinha do cadeado: ele se destrancara.

Ao tirar o cadeado do trinco, ele se despedaçou e desapecereu, sem deixar vestígio algum. A porta se abriu, uma força invisível a empurrava, e após ela, nada mais que outro corredor, dessa vez completamente escuro, e um brilho, uma luz ao longe.

Atravessei o portal, e caminhei na escuridão. Caminhei por certo tempo, até perceber que a luz não se aproximava. E então, o facho de luz se transformou num clarão que dominou todo o recinto, tão forte e poderoso que mal podia manter os olhos abertos. Quando finalmente percebi ser possível abrir os olhos novamente, me surpreendi com o que vi.

Estava em pé, com um velho bermudão jeans e uma camiseta regata vermelha, sem estampas. Parado em frente ao Rio Acre eu fiquei. Próximo a mim, à esquerda, se elevava o imponente Mastro da Bandeira, de onde tremulavam graciosamente o amarelo, o verde, e timidamente uma estrela de sangue.

O sol se deitava, como de costume, e o clima agradável tornava seus raios a me tocar o rosto uma dádiva, um presente. Me sento na calçada, tentando entender um pouco do que está acontecendo. Será isso um sonho? Antes mesmo de processar a pergunta, o rubor do céu ao despedir-se do sol me dá a resposta: lá. Lá está o que eu procuro.

Me levanto num salto, em sua procura, esperando encontrar. Isso não é um sonho. É uma lembrança. E assim, com a certeza de que todo aquele espetáculo de Deja Vu é uma lembrança, abre-se no rosto outra alegria: esperança.

Mas ao virar-me, impelido por uma força titânica a buscar o que procuro, me depara com uma figura: alto, em vestes negras, o mesmo sobretudo que usei no Corredor das Memórias, e um chapéu de pescador, também negro. Apesar de todo aquele visual dark, havia algo que cintilava, brilhante por sob a blusa, na altura do cinto…

“Evans!”

“Meu caro amigo, apesar de eu estar orgulhoso por você ter conseguido abrir uma porta, você escolheu justamente a errada. Não está pronto pra estar aqui ainda.”

“O que? Por que? Como assim?”

“Digamos que eu sei um pouco mais do que você.” – e num rápido movimento, Evans toca minha testa com o indicador.

Uma dor excruciante me percorre o corpo e eu caio de joelhos. Um momento seguinte de desequilíbrio, e levanto, mas não do chão, e sim da minha cama.

Sem fôlego e atônito, levo as mãos à cabeça, num apelo desesperado por clareza, uma mísera explicação que fosse. Porque eu estava ali? Justo ali? O que Evans quis dizer com “pronto”? E o que era aquilo que brilhava?

Mais um momento se passou, até que resolvi pular da cama de cima do beliche. Ao chegar ao chão, o impacto da queda derruba algumas coisas da estante ao lado da cama. “Droga”. Me abaixo para pegar os objetos caídos: minha carteira, um vidro de perfume, meu mp3, a caixinha com a pedrinha que ganhei de presente da mãe, as chaves do carro… e a resposta para minha última pergunta.

Gostar Não É O Bastante

Gostar é como diluir o amor.

Gostar é medíocre.

Gostar é a falta de emoção dos contentes.

Atletas não se sacrificam por gostar do esporte.

Artistas não sofrem por gostar de arte.

Não existe uma camiseta dizendo I Like New York.

E o que Romeu sentia por Julieta era bem mais que gostar.

Amor. Isso sim tem força.

O amor tem o poder de mudar.

Subverter.

Conquistar.

O amor está na raiz de tudo de bom que já aconteceu e vai acontecer.

Love what you do.

*BlackBerry – Anúncio – Capa INFO Exame Dez/2009

Silêncio & Sombras

Barulho. Parece vir da cozinha. E não é um barulho qualquer, não inspira a segurança normal das frutas caindo sobre o telhado, ou os cães subindo e descendo as escadas das varandas.

De novo. Parecem… passos. Silenciosos, num apelo desesperado de “não me ouça”. Mas é impossível aos ouvidos treinados de Douglas não ouvi-los. Instruídos por militares frios e robóticos, alimentados pelos desejos egoístas e bélicos dos líderes políticos que fazem de seus exércitos nada mais que brinquedos.

Douglas se levanta de sua cama, onde sua amada dorme a seu lado. Ela ainda está adormecida, envolta no manto pacífico da noite, e no que depender de seu amado, nada incomodará esse descanso, mais que merecido. Não é fácil viver com alguém assim…

De qualquer forma, aquele ruído a altas horas da manhã não é certo, e já tirou o sono de Douglas. Ele tira a faca de caça detrás do encosto da cama, e mesmo só de calção, ergue-se sorrateiramente pelo quarto. Abre uma fresta na porta do quarto. Ninguém no corredor. Aparentemente, quem quer que tenha invadido a casa, ainda não havia se aventurado pelos outros cômodos da casa.

Douglas se esgueira pelo corredor escuro, até chegar à cozinha. Uma figura se revela em frente à mesa de jantar: é alta, de grande porte, maior que Douglas, a sombra de sua mão revela o que aparenta ser uma arma de grosso calibre, calibre .16, talvez…

Um homem. Os grunidos denunciam. Ele tateia a mesa na cesta de frutas. Procurando algo pra comer, talvez? Pouco importa.

O alvo está de costas. Desavisado. Para muitos, pode parecer covardia. Não para Douglas. Ele foi treinado assim. Lhe foi ensinado a lei da selva. Pare… ou seja parado. Detenha… ou seja detido. Impeça… ou seja impedido. Mate…

Tudo nessa ordem. A diferença sutil, e ao mesmo tempo abissal entre um infiltrador, um stealther, uma sombra, por assim dizer… e um assassino.

Ele se aproxima do desconhecido. Silencioso. Iminente. Letal…

De repente, o invasor percebe que não está só. Num segundo, se vira por reflexo, mas é tarde demais. A mão esquerda de Douglas o acertara na cabeça, levando-a de encontro à mesa, enquanto sua mão direita imobilizava a arma e seu braço restante.

Enquanto se debate em busca de liberdade, o sujeito sussura: “Ei mano, qualé… só entrei pra ver se descolava um rango, tá ligado..? Não me ferra não, sô da paz…”

Um movimento mais rápido que os olhos podem acompanhar, e o pé substitui a mão que antes prendia, a esquerda paralisa e desloca dedos na mão direita do invasor, enquanto a direita desmonta a espingarda calibre .16 … no ar…

É a voz de Douglas, sempre calma e calculista, que agora voa sussurante pelo cômodo: “Você se veste bem demais para um vagabundo, conseguiu invadir a casa silenciosamente, apesar da atuação ridícula ao me deixar notar sua presença, sem falar que nem mesmo o mais rico dos mendigos teria como conseguir um calibre desses, ainda mais pra assalto simples. É melhor ser mais sincero nas suas próximas frases, mano”

Suspiros de dor suscedem o invasor quando ele apenas diz: “foda-se… pode me matar, e não vou dizer nada…”

Os dedos de sua mão dessa vez não deslocam, mas quebram. Com a facilidade de gravetos no fim de outono. Douglas conclui: “morte não é punição, é libertação. Só posso chegar à sua mente pelo seu corpo, não culpe a mim, mas ao Criador… e outra: esse seu sotaque de marginal é simplesmente deplorável”

E com o apoio da espingarda, lhe desfere um golpe na cabeça, levando-o à inconsciência.

Ao voltar pra cama, Sam estava acordada. Ao receber o marido de volta, perguntou-lhe docemente: “amor, algo errado?”

Um sorriso torto na escuridão do quarto, visível, pelo tom da voz, e douglas responde: “nada amor, só estava cuidando dos ratos… amanhã dou conta deles… volte a dormir… amo você…” e com um beijo, lhe pôs a dormir novamente…

Passado… presente… futuro…

…e num último vislumbre, vejo a cidade ser deixada pra trás, envolta no manto da escuridão noturna…

deixo pra trás pessoas, lugares, idéias e lembranças, não permanentemente, mas por tempo suficiente pra que minha mente volte a caminhar na trilha da sanidade…

um mundo novo está prestes a se abrir perante meus olhos: desafios jamais enfrentados, num frenesi de empolgação pelo novo, pavor pelo que há de vir… temor pelo que mal sei que me aguarda…

é assim que inicio esse novo ano: pela primeira vez, cada passo dado não é planejado, calculado, medido e avaliado. Pela primeira vez, me deixo levar pelo inesperado… pelo êxtase de não saber onde ponho cada pé…

cada dia uma nova batalha… cada linha uma vitória…

e só tenho a agradecer quem me trouxe até aqui…

Lágrimas

..aquele coração, aquele ser, antes tão impávido, invulnerável, inabalável… agora mal se continha… seu peito apertava, a garganta ardia em fogo ao que seus olhos se banhavam em lágrimas… lágrimas antes tão desejadas, naquele ímpeto de agarrar-se a qualquer traço de humanidade, a oração tão desesperadamente rogada, e nunca atendida… um monstro com coração de pedra… pedra da qual agora brotavam lágrimas aos sorvos…

ele sempre sonhara com esse momento… sonhava com um dia em que suas lágrimas finalmente jorrariam na terra árida do seu campo de solidão… uma emoção que logo se perderia em meio à sequidão do solo morto onde ele se largaria, e finalmente abriria mão de sua grandeza… de sua divindade…

era assim que o sonho lhe retratara seu fim… triste… sozinho… esquecido…

surpreendentemente, não era assim que o destino lhe aprazia naquele momento… sua cabeça não se largava ao léu, mas era acalentada por meigos braços… suas lágrimas não se perdiam em esquecimento, mas eram aparadas pelas mais suaves mãos… envoltas em carinho… tão complexo… e aos mesmo tempo tão impossivelmente maravilhoso…

seu coração, tão destroçado, destruído, e endurecido pelas intempéries do tempo e pela irresponsabilidade e indelicadeza da juventude, agora, acolhidos por outro coração… embebidos em cura… em afeto… e, se não fosse pedir muito… esperança…

“it’s never too late…” nunca é tarde demais…

Fire, Blood and Tears

“VENHA! TENTE A SUA SORTE! ACABE COMIGO, OU VEJA SUA RAÇA SE AJOELHAR EM ESCRAVIDÃO PERANTE MIM!” – bradava o Anjo de Asas Negras, pairando sobre o mar de cinzas que outrora foi o Centro da Cidade de Rio Branco. Praças e Prédios, completamente obliterados, pelo simples esboço de vontade daquele ser tão magnífico, e ao mesmo tempo, inundado de ódio, tristeza…

Meu corpo já está muito além dos limites. As batalhas anteriores com o Anjo de Asas Douradas e o Arcanjo Seraphiel foram exaustivas, e só venci por milagres… meu sangue já bate fraco nas veias, meus sentidos me abandonam pouco a pouco… a figura do Anjo de Asas Negras é pouco mais que um borrão, e as vozes dos meus amigos, atrás de mim, não passam de sussuros… me resta pouco tempo…

Em meio àquelas vozes, há uma que consigo discernir em meio aquele caos… uma voz feminina, familiar, que brada em desespero: “meu amor, volta! por favor, volta!! não faz isso!! eu preciso de você VIVO!!”

Apesar do corpo estar dormente pela dor e cansaço, sinto uma lágrima verter e dançar suavemente pelo meu rosto maltratado… é quente… cheia de sentimentos que, embora eu não compreenda, me maravilham de forma jamais vista…

“…me contentaria de sentir isso mais uma vez antes de ir…” – sussurro de modo que só eu escuto… eu e eles… e então, falo o mais alto que minha voz ainda pode sustentar – “…e eu preciso que vocês vivam… ou nada do que fiz até hoje terá valido a pena…”

Não sei se minha audição melhora ou se os gritos se elevam, mas agora ouço com mais nitidez os gritos e choros desesperados de todos…

Mas ninguém pode me parar. Ninguém pode me ajudar. Essa é minha batalha.

O campo protetor gerado por mim e pelo Anjo de Asas Negras é mais que suficiente pra manter todos longe… e a salvo… nada entra… e nada sai… até eu pôr um fim nisso…

o Anjo de Asas Negras despeja seu olhar sombrio sobre mim, um sorriso canibal estampado no rosto: “Sua espada, Dragão. Vamos começar.” – dizendo isso, conjurou uma enorme espada negra em sua mão direita, ao estilo dos cavaleiros da Idade Média – “minha cruz purificará esse mundo, como a Primeira Cruz purificou os pecadores… com sangue… seu sangue…” – e dizendo isso, impeliu-se com toda a força de suas enormes asas em minha direção, a espada apontada para o meu coração…

..ainda tenho forças pra lutar… ainda tenho forças pra esquivar e travar outra boa luta… minha última luta… e o faria, se dependesse só de mim…

“VOCÊ É MEU!” – e a lâmina negra atravessa meu peito, com ferocidade e destreza. Certeira. Fatal.

Um momento de transe. Silêncio. A única coisa que ouço é o pingar do meu sangue a escorrer de todos os meus poros… mas o sangue que pinta o chão não é mais só vermelho… é negro também…

“…não posso acreditar… logo você… executou o Sacrifício…” – o Anjo de Asas Negras parecia desapontado… – “nem uma boa luta você é capaz de me dar…”

“…essa é a melhor luta que posso lhe dar, na minha atual condição…” – meu braço ainda estava cravado no peito dEle… havia quebrado a armadura e lhe esmagado o coração nas próprias costas… “…sem falar que eles não merecem mais momentos de tensão… tudo está acabado agora…”

o Anjo de Asas Negras se eleva no ar, não mais pelo bater de suas belas asas, mas por alguma força desconhecida… um chamado…

“Pelo fogo vim a esta terra… e pelo fogo a deixarei… seu coração decidirá se também será tragado pelas chamas da purificação…” – disse Ele, enquanto se esvaía, engolfado em línguas de fogo negro…

Meu corpo desmorona de mais de 15 metros, envolto em fogo negro… não sinto mais nada… absolutamente nada, além do alívio de saber que tudo terminou…

“…ele tá acordando…” – ouço distante, enquanto sinto um calor… gostoso… acolhedor… um colo… estou no colo de alguém?

“bem vindo de volta, meu amor” – a mesma voz que antes se descontrolava, pedindo a minha volta, agora, docemente me recepcionava de volta à consciência…

“o que houve?” – pergunto, não compreendendo nada – “..eu devia estar no inferno agora…”

“mas não está. Você dominou o Anjo e as chamas negras. Elas não estavam te consumindo.. parecia que elas estavam te carregando… quando chegou ao chão, elas apagaram e apareceu isso…” – disse ela, ao me mostrar meu próprio braço esquerdo – uma tatuagem, um dragão negro, circundando desde o meu ombro até o pulso – “..o que significa?”

não sei se minha ignorância e desinteresse por aquele novo adereço foi visível, mas só o que pude dizer foi: “…significa que vamos ter um pouco de paz, pra variar… preciso de férias… e um milk-shake… morango, por favor…”

E dormi. Em paz, como há muito não dormia…

Céu Nebuloso

Nebuloso. Assim está o céu. Deve ser madrugada. Estou num lugar estranho. Campo aberto. Nada a se ver, até onde a vista alcança. De bermuda e camisa, me vejo admirando o céu que teima em acordar, ainda lutando contra os primeiros raios de sol. Meu peito sob a camiseta aberta está úmido, pelo sereno da noite. Meus olhos, afogados em lágrimas. Os pés, descalços no chão, num misto de pedra e asfalto, uma arquitetura irregular e gélida. Fria. Morta. Minha voz soa rouca, como um nó na minha garganta seca:

- Tem que ser assim? – pergunto, sabendo muito bem da resposta.

Atrás de mim, braços me envolvem num aperto caloroso, porém frio como mármore, e firme como o aço, com as mãos em meu peito, me afagando o coração… Uma segunda voz, suave e quase angelical, ternamente me responde:

- Não há com o que se preocupar. Eu cuidarei de você. Para isso estou aqui. – e se aproximando, continuou, em baixo tom, ao meu ouvido – De agora em diante, seremos um só. Em carne e espírito.

No momento seguinte, relaxo todo o corpo, no que sou acometido por um pressão insuportável, e uma dor excruciante me avisa que fui atacado, dentes se enterrando no meu pescoço, a vida se esvaindo em sorvos intermináveis. A consciência me abandona. Antes, porém, de me entregar ao manto escuro da “minha” morte que se aproximava, sinto Os Quatro entrando em choque, o equilíbro primário de sanidade sendo violado, e Oz, a grande fera que habita nos vales da minha existência, tomando controle total. Incontestável. Irrefutável. Inescapável.

 

 

Ao despertar, me vejo em movimento. Como um mero passageiro do meu próprio corpo. Oz se move numa velocidade absurda, sobre-humana. Enquanto eu sou apenas levado pela força de sua vontade animalesca. Não passo de um instinto, de agora então. Um animal. Uma besta selvagem. Um monstro. E como tal, preciso saciar minhas vontades e desejos…

Logo a frente, vejo uma outra figura, se movendo em velocidade, mas não será o suficiente pra escapar. Não dos meus novos braços e pernas, e principalmente da minha nova fúria. Em 3 lances, Oz consegue alcançar a criatura, que agora se debate sob a pressão de seus braços. Quando Oz inclina a cabeça lentamente, vejo a garganta da criatura se aproximando de sua boca. Ao prestar atenção, descubro que é o mesmo ser que me abraçara momentos antes. As mãos, agora inertes sob o meu poder. O veneno. A dor. E o renascimento.

Suas pupilas cor de mel. As íris vermelhas. Os traços femininos. Não preciso que abra a boca pra saber que é dona da mesma voz.

- Sei que é sangue o que quer. Cada partícula do seu corpo clama por isso, eu posso sentir. Pegue de volta o que te tomei. Será o maior prazer que me dará nesta pós-vida. Tome meu sangue. Seja um só comigo também.

No segundo seguinte, Oz impele sua presas na garganta da bela moça.

 

 

Acordo. Manhã. Meu quarto. Minha cama. Sozinho. Encharcado de suor. A mão na testa me revela febre, e uma têmpora latejando. Ao menos ainda tenho sangue correndo nas veias. E curiosamente, meu pensamento seguinte é…:

- Isso não foi meu passado, como geralmente sonho. Que seja fantasia… ou na pior das hipóteses, meu futuro…

Bastardos Inglórios

Uma obra de arte. Mais uma, na verdade. Quentin Tarantino não se cansa de fazer coisa boa, o que é ótimo, para a humanidade, como um todo. Confesso me sentir culpado por ter demorado tanto pra saber da última obra, mas valeu a pena, toda e qualquer espera, fosse ela sabida ou não.

Guerra, Ódio, Tortura e uma Selvageria Civilizada próxima à Insanidade. Assim descrevo Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009). Assisti a essa maravilha cinematográfica de gancho, enquanto esperava começar outro titã do cinema, 2012. Não me decepcionei, com nenhum dos dois, embora tenha me encantado mil vezes mais pelo cheiro de sangue e pólvora da Segunda Grande Guerra.

Tenente Aldo “O Apache” Raine, interpretado por Brad Pitt (sou fã incondicional do cara). Estrategista e Escultor de Primeira. Sargento Donnie “Urso Judeu” Donnowitz, interpretado por Eli Roth. Ganhou outro fã. Shosanna Dreyfus, interpretada por Mélanie Laurent. Se ela for tão francesa quando parece no filme, eu já gamei.

 

"Estamos no ramo de matar nazistas, e primo.. Os negócios estão bombando"

"Estamos no ramo de matar nazistas, e primo.. Os Negócios estão Bombando"

Donnie "Urso Judeu" Donowitz

"A gente arrebenta esses chacais, pega as metralhadores e chega atirando"

"...porque Marcel, meu amor, nós vamos fazer um filme, só pros Nazistas"

Bastardos Inglórios. Melhor filme de guerra que eu já vi. Altamente recomendável.

À frente: Eli Roth, Brad Pitt e Til Schweiger. No fundo: Mélanie Laurent, Christoph Waltz e Diane Kruger

E a seguir, o trailer do filme, a quem interessar possa.

Like a Stone

A melhor música do mundo… já feita…

na melhor versão já ouvida, gravada e publicada…

Like A Stone, por Chris Cornell

On a cold wet afternoon
In a room full of emptiness
By a freeway I confess
I was lost in the pages
Of a book full of death
Reading how we’ll die alone
And if we’re good we’ll lay to rest
Anywhere we want to go

In your house I long to be
Room by room patiently
I’ll wait for you there like a stone
I’ll wait for you there alone

On my deathbed I will pray
To the gods and the angels
Like a pagan to anyone
Who will take me to heaven
To a place I recall
I was there so long ago
The sky was bruised, the wine was bled
And there you led me on

In your house I long to be
Room by room patiently
I’ll wait for you there like a stone
I’ll wait for you there alone

And on I read
Until the day was gone
And I sat in regret
Of all the things I’ve done
For all that I’ve blessed
And all that I’ve wronged
In dreams until my death
I will wonder on

In your house I long to be
Room by room patiently
I’ll wait for you there like a stone
I’ll wait for you there alone, alone

“..and if you’re out there, reading this… don’t forget… I’ll wait for you… like a fucking stone…”

Olhos, Sangue, Veneno e Cia.

Desperto. O sono me vence, enquanto luto pela consciência. Preciso terminar esse trabalho, do contrário.. O cansaço é total, quase titânico. O visor do notebook jaz morto à minha frente. Sabe-se lá há quanto tempo.

Levanto a cabeça, parece pesar quilos a mais. Estranhamente, a visão do lado esquerda não existe. Por vezes, é devido à posição da cabeça, prende algum vaso sanguineo, impedindo que funcione normalmente… mas basta desobstruir o impedimento, e em instantes, a visão retorna ao normal…

Pelo menos era assim… mas dessa vez, está demorando mais que o de costume. Bem mais. Talvez não seja nada demais, de qualquer forma, preciso terminar o trabalho. Daqui a pouco tudo fica nos conformes…

Imagine o quão horripilante é perder um olho, mesmo que por pouco tempo (meia hora pra mim, já é mais que suficiente). Corro pro banheiro, pra ver o que está acontecendo. No espelho, o que vejo me faz sentir calafrios quase como um choque elétrico: meu olho esquerdo está totalmente vermelho. Desde o globo ocular, até boa parte da íris, como se estivesse afogado em sangue. Curiosamente, não há dor… Não fosse o vazio negro que me limita do lado esquerdo da cabeça, diria que as coisas estão bem normais…

Nesse instante, algo me atrai a atenção. No espelho, uma imagem qualquer se move no interior sanguinolento do meu olho.. ao chegar mais perto, outra surpresa: um vislumbre de uma mão, como se pedisse socorro… e então, minha pupila parece absorver todo o sangue, juntamente com a própria íris, deixando apenas um vestígio vago do castanho que ali havia…

No espelho, não era mais meu reflexo que me encarava, mas sim a mesma figura que me nocautera algumas noites antes…

“Olá, Evans.” – pelo menos dessa vez, estou em casa..

“Olá, caro amigo… Sentiu minha falta?” – agora entendo pq as pessoas odeiam tanto meu sarcasmo… é indiscutivelmente irritante, sim…

Nosso encontro foi diferente, dessa vez: Evans só possuía um olho seu, o outro era o meu castanho, o que me levava a crer que talvez eu mesmo estivesse daquele jeito…

“Só passei pra matar saudades..” – a ênfase que ele colocava em certos termos era inquietante…

“Que bom, preciso voltar ao meu trabalho, pode me deixar em paz…? Pra sempre seria um bom tempo. não acha?”

“Não me demorarei… só quis que lembrasse que eu ainda estou aqui…”

No espelho, o olho albino de Evans vertia sangue agora, e pude sentir dor no meu olho esquerdo. Me largo no chão do banheiro, as mãos no rosto. Quando percebo, verto lágrimas de sangue.. “Ok, isso é novidade” .. Até onde Evans pode me surpreeender??

Ao ver meu reflexo novamente, são meus olhos castanhos que me fitam, assombrados com a nova mágica que “aprendi”, e meu rosto cansado e ensanguentado carrega uma expressão exausta… furiosa… horrificada…

Nem que eu queira vou terminar esse trabalho hoje… Melhor gastar umas horas em sono… melhor que faço…

Talvez eu consiga ajudar a mão que estendeu um pedido de ajuda a mim… pelo menos…evans,

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