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É por um corredor mal iluminado que ando agora. Pequenos archotes, com tocos de vela mirrados é que me trazem a mínima sensação de orientação. Meu corpo coberto apenas por um sobretudo preto, como se tivesse vestido com o próprio manto da noite. Ao olhar pra cima, me deparo com o céu… o mais estrelado e perfeito que já vi na vida. Um céu como aquele só me recordo de ter visto uma única vez, e por uma única razão.
Ao voltar minha atenção ao corredor, percebo que sob meus pés… não há nada. Nada além de escuridão. Um enorme manto negro a se abrir infinitamente. Não que o piso fosse invisível, mas como se eu pairasse sobre uma superfície imperceptível ao olho humano, e além dela, só existisse o mais puro e simples vazio. Gigantesco. E assombroso…
Esse ambiente anormal causa uma série de sensações estranhas e confusas. O temor a cada passo, sem saber se haverá algo a me sustentar, e a incrível sensação de o corredor se mover, enquanto me mantenho no mesmo lugar, ensaiando passos na lua.
Como se a estranheza do lugar já não me fosse o suficiente, algo novo me surpreende: as paredes, que até então apenas sustentavam os archotes e contribuiam para minha ilusão de ótica particular, agora eram decoradas por portas. Inúmeras portas. De todos os tipos, tamanhos, cores e modelos. E pelo que vi, nenhuma delas era igual à outra. Cada uma delas era única. Singular.
E todas elas, trancadas.
Mal sei quantas horas haviam se passado, mas nesse incontado espaço de tempo, nenhuma das curiosas portas se encontrara aberta para mim… Algumas delas tinham placas de identificação, porém numa língua ininteligível, uma simbologia jamais vista…
Enquanto andava, ouvi um barulho à minha direita. Vinha de uma porta vermelha, pouco maior que eu próprio, detalhes de moldura simples, como retângulos, espalhavam-se por sua superfície, um trinco antiquado, preso apenas por um cadeado comum, uma tintura dourada, porém gasta pelo uso. O som que ouvi vinha do cadeado: ele se destrancara.
Ao tirar o cadeado do trinco, ele se despedaçou e desapecereu, sem deixar vestígio algum. A porta se abriu, uma força invisível a empurrava, e após ela, nada mais que outro corredor, dessa vez completamente escuro, e um brilho, uma luz ao longe.
Atravessei o portal, e caminhei na escuridão. Caminhei por certo tempo, até perceber que a luz não se aproximava. E então, o facho de luz se transformou num clarão que dominou todo o recinto, tão forte e poderoso que mal podia manter os olhos abertos. Quando finalmente percebi ser possível abrir os olhos novamente, me surpreendi com o que vi.
Estava em pé, com um velho bermudão jeans e uma camiseta regata vermelha, sem estampas. Parado em frente ao Rio Acre eu fiquei. Próximo a mim, à esquerda, se elevava o imponente Mastro da Bandeira, de onde tremulavam graciosamente o amarelo, o verde, e timidamente uma estrela de sangue.
O sol se deitava, como de costume, e o clima agradável tornava seus raios a me tocar o rosto uma dádiva, um presente. Me sento na calçada, tentando entender um pouco do que está acontecendo. Será isso um sonho? Antes mesmo de processar a pergunta, o rubor do céu ao despedir-se do sol me dá a resposta: lá. Lá está o que eu procuro.
Me levanto num salto, em sua procura, esperando encontrar. Isso não é um sonho. É uma lembrança. E assim, com a certeza de que todo aquele espetáculo de Deja Vu é uma lembrança, abre-se no rosto outra alegria: esperança.
Mas ao virar-me, impelido por uma força titânica a buscar o que procuro, me depara com uma figura: alto, em vestes negras, o mesmo sobretudo que usei no Corredor das Memórias, e um chapéu de pescador, também negro. Apesar de todo aquele visual dark, havia algo que cintilava, brilhante por sob a blusa, na altura do cinto…
“Evans!”
“Meu caro amigo, apesar de eu estar orgulhoso por você ter conseguido abrir uma porta, você escolheu justamente a errada. Não está pronto pra estar aqui ainda.”
“O que? Por que? Como assim?”
“Digamos que eu sei um pouco mais do que você.” – e num rápido movimento, Evans toca minha testa com o indicador.
Uma dor excruciante me percorre o corpo e eu caio de joelhos. Um momento seguinte de desequilíbrio, e levanto, mas não do chão, e sim da minha cama.
Sem fôlego e atônito, levo as mãos à cabeça, num apelo desesperado por clareza, uma mísera explicação que fosse. Porque eu estava ali? Justo ali? O que Evans quis dizer com “pronto”? E o que era aquilo que brilhava?
Mais um momento se passou, até que resolvi pular da cama de cima do beliche. Ao chegar ao chão, o impacto da queda derruba algumas coisas da estante ao lado da cama. “Droga”. Me abaixo para pegar os objetos caídos: minha carteira, um vidro de perfume, meu mp3, a caixinha com a pedrinha que ganhei de presente da mãe, as chaves do carro… e a resposta para minha última pergunta.



