Dia.
Ou pelo menos, era o que parecia.
A sequidão na garganta o fez acordar com muita tosse e falta de ar. Lufadas de areia subiam a cada arfada pesada e tossida. Até respirar parecia um trabalho árduo naquelas circunstâncias. Tentou erguer-se pouco a pouco, no que filetes de areia escorriam-lhe pelo pescoço e costas.
De pé, todo sujo, as roupas gastas como se tivessem sido usadas por meses a fio, ele se pôs.
O ambiente ao seu redor era muito parecido com o beco no qual ele fizera um mergulho desagradável, acidental e indesejado num monte de lixo até pouco tempo, não fosse o solo árido e os prédios ao lado do que agora não eram mais que montes de entulho castigado pelo vento e pelo tempo.
O vento, aliás, era forte. O suficiente pra fazer os grãos de areia parecerem agulhas ao se chocarem com a pele humana. Peles como à pertencente ao humano que agora vagava lenta e vascilantemente pelo que pareciam ser as ruínas da cidade que lhe viu correr pela própria vida, ao que parecia ter sido poucos minutos atrás.
Seu nome era Benjamin, e ele pouco lembrava do que lhe acontecera, e menos ainda como havia parado ali, ou como a cidade teria se tornado fantasma assim, tão de repente.
Só lembrava dos olhos dourados da figura de terno, que lhe falara de sua passagem certa e inescapável ao inferno.
Então era isso? “Estou no inferno? Morri??”, ele pensou.
Mas não teve tempo de dar continuidade a esse pensamento. Sua dúvida foi interrompida por barulho. Os entulhos pareciam se mover. Rapidamente voltou sua atenção ao prédio de apartamentos que agora não passava de um monte disforme de tijolos e areia.
Olhou. Esperou. Por um tempo indeterminado, e desconfortavelmente prolongado. A expectativa aumentando a cada segundo, sem fazer idéia do que estava acontecendo, em nenhuma das circunstâncias.
De repente, três figuras surgiram detrás do monte de entulho. Pareciam macacos. Tinham corpos humanóides, mas andavam de quatro, com as mãos em apoio ao chão. Eram muito magros, quase esqueléticos, usavam trapos como roupas, amarrados de qualquer jeito, e tinham cabelo muitíssimo ralo, além da pele enegrecida pela sujeira.
Porém, o que mais espantou Benjamin… foram os rostos. Desfigurados. Animalescos. Um tanto… ferais. Eram desprovidos de olhos, substituídos por pele onde estariam as cavidades oculares, e ao que pareciam, se orientavam puramente pelo cheiro, suas narinas não paravam de farejar um minuto que fosse.
Quando perceberam ter encontrado o que procuravam [aparentemente, Benjamin], formaram pouco a pouco, passo a passo, um semi-círculo ao redor dele, forçando-o a se afastar, buscando proteção, distanciando-se deles. Estavam encurralando-o contra os escombros de uma parede, arfando e grasnando alto, tinidos de ensurdecer os ouvidos.
Quando parecia não haver escapatória, eles pararam. Não recuaram, mas não avançaram também. Benjamin, na confusão, tentando pensar em algo que pudesse fazer, uma saída, qualquer coisa. Novamente, seus pensamentos foram interrompidos.
Um quarta figura apareceu em meio à constante tempestade de areia. Era um homem. Não como as criaturas que cercavam Benjamin, mas um homem. Normal. Com toda a simplicidade que a descrição pode ter.
Os cabelos e a pele muito mais ressecados e envelhecidos que os de Benjamin, as roupas porém, mais conservadas, talvez pelo material mais resistente do qual aparentemente elas eram feitas. Andava descalço pelas ruas destruídas, e de longe, vinha murmurando alguma coisa.
Ao chegar mais próximo, Benjamin percebeu que não era uma língua que ele entendia. Era formada por silvos e grunhidos. Não entendia o que eram, mas percebeu o que queriam dizer: não toquem nele ainda.
Benjamin pensou “ainda”, já que as criaturas não recuaram, nem se deram ao trabalho de calar os grunhidos que mais pareciam com brados de “queremos sua carne”.
Com a voz fria e seca, o homem falou:
- Faz tempo que ninguém chega vivo aqui. Por isso meus cães estranharam teu cheiro. Carne fresca demais… – e um sorriso de desdém cortou-lhe a face ressecada.
- De qualquer forma, não posso lhe fazer nada até você falar com o barqueiro. Você tem duas escolhas: vir comigo.
Benjamin engoliria em seco se sua boca não fosse mais que um compartimento árido para guardar seus dentes. A língua quase grudada de vez na gengiva.
Fez uma menção a pular num espaço maior entre uma das criaturas e a parede ao seu lado, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, o homem apareceu como mágica, a menos de um palmo, em sua frente.
- Precisa ser mais rápido que isso. – e ergueu a mão direita, dedos esticados em sua direção, exceto o polegar que travava o médio, numa óbvia demonstração de que o homem estava prestes a dar um peteleco em Benjamin.
E foi o que fez.
O resultado porém, foi inesperado. Benjamin foi arremessado e afundou facilmente no monte de entulho que estava atrás dele.
Atordoado do impacto, Benjamin ainda pôde ver e ouvir, mesmo que vagamente, o homem sibilar ordens aos seus cães naquela língua que ele não compreendia. As criaturas então avançaram por sobre seu corpo caído, catando-lhe por mãos e pés, sem muito cuidado.
Foi levado aos pés do homem, que tocou-lhe a testa com o indicador. Benjamin sentiu como se todo o seu crânio pegasse fogo. Seus olhos pareciam pular das órbitas. Um grito ensurdecedor ecoou pelas ruínas da cidade abandonada.
E Benjamin, enfim, apagou.
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